Um breve ensaio na linha do tempo: onde estão as benzedeiras?

Na quadra da Rua Aparício Borges, onde moro desde que nasci tinha um senhor que possuía uma oficina para consertos de guarda-chuvas. Vinham pessoas de todas as partes da cidade para trazerem seus guardas-chuvas estragados, eles voltavam para seus donos em perfeitas condições de uso. Dizer para a geração de crianças e adolescentes dessa época que existiu oficinas para o conserto desse tipo de acessório talvez soe como algo engraçado num tempo em que produzimos uma enorme quantidade de lixo e as coisas são descartáveis.
Me recordo que havia um bom número de sapateiros na cidade, em diferentes pontos do perímetro urbano. Hoje não se tem mais notícias deles, os mais velhos partiram para a morada divina e as gerações que os sucederam não quiseram tocar o negócio adiante por falta de clientes. Sim, hoje em dia sapatos e botas são descartados no lixo quando não apresentam mais boas condições de uso. Alguns desses sapateiros dominavam a técnica de refazer todo o solado dos sapatos com artefatos de borracha, o material era moldado à frente do cliente, em seguida se realizava a colagem do material e a fixação com pregos específicos para o trabalho. Numa era onde se descartam até pessoas não chega a ser nenhum exagero o descarte imediato de coisas que estragam, sem a busca por um reparo que acabou sumindo de nosso cotidiano justamente pelo fato do declínio na procura, o que fez com que esses profissionais fossem aos poucos sumindo.
Aqui de casa onde escrevo minhas colunas geralmente aos sábado à noite para ser publicada no domingo, lanço o olhar para o outro lado da rua através da janela frontal e me recordo da falecida dona Maria, ela era costureira e benzedeira. Quando faleceu deixou um vácuo de saudades em várias pessoas que se socorriam de seu dom para aliviarem seus sofrimentos. Lhes pergunto: onde estão as benzedeiras que espalhavam amor e levavam esperanças? Elas também estão sumindo. Mas nesse caso por um outro motivo que não o dsscarte: está nos faltando amor. Vivemos um tempo onde algumas pessoas preferem ter mais consideração por um cachorro do que por alguns seres humanos, em muitos casos elas têm razão, infelizmente.

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