Chove muito no deserto

CHOVE E MUITO NO DESERTO
Tenho, dentro das minhas possibilidades, viajado mais, visitado lugares antes só conhecidos por vídeos, pela televisão ou em livros didáticos.
Mais do que o deslumbramento ao nos depararmos com verdadeiras obras da natureza ou a admiração com modernas construções e prováveis decepções às desnecessárias modificações provocadas pelos homens, uma viagem nos informa, nos desafia e nos transforma.
Existem estudos que comprovam as muitas transformações neurológicas que ocorrem no cérebro de cada um de nós após uma viagem. O quanto mais longe de casa, mais significativas são essas mudanças.
Visitei recentemente Santiago do Chile e, ao sobrevoar a Cordilheiras dos Andes e o Deserto do Atacama, era possível avistar lá do alto, pequenas comunidades vivendo naquele lugar tão inóspito.
Questionei às pessoas que estavam comigo: como poderia alguém viver em um lugar tão isolado? Que conhecimento de mundo possa ter alguém vivendo distante da tecnologia? De onde provem os recursos para as necessidades básicas? Como plantar, criar ou pescar se não existe água, afinal no deserto não chove e a cordilheira congela?
Fui pessoalmente ao deserto e à cordilheira e lá obtive todas as respostas. A primeira e mais chocante, confesso, minha ignorância.
Chove sim no deserto. Dos seis dias que lá estivemos quatro choveram. Há dois rios que cruzam o deserto do Atacama, em seu leito correm águas vindas principalmente dos degelos das Cordilheiras dos Andes.
Existe lagos no meio da cordilheira que são abastecidos pelas águas das chuvas que caem graças a nossa Amazônia. O frio congela no inverno. No verão, com o degelo, essas águas abastecem os rios e as inúmeras lagoas espalhadas pelo deserto, dando vida à região.
A pequena cidade no meio do deserto, San Pedro do Atacama, com ruas sem pavimentação, casas com paredes de barro, iluminação precária e pessoas de aparência simples esconde uma riqueza impressionante.
Já viajei para Suíça, Suécia, Finlândia e outros países nórdicos, famosos pela disciplina, educação e alto padrão de vida, mas em nenhum deles conheci pessoas tão prestativas e cativantes. Os guias turísticos, que nos acompanharam nos passeios diários, demonstraram conhecimento geral e uma inteligência muito acima da média.

Nos restaurantes, de aparência acanhada, cardápios sofisticados e um atendimento de dar inveja aos badalados resorts no Brasil e no mundo.
Voltei inundado, não pelas surpreendentes chuvas que caíram justamente naqueles dias, mas pela enxurrada de fatos novos que me obrigaram a rever conceitos.
Esperava encontrar miséria no deserto e só vi fartura. Preparei-me para ver um povo ignorante e sofrido e fui surpreendido pelo alto nível intelectual e uma contagiante alegria de todos.
Mais do que água, no deserto, chove mesmo é oportunidades, emprego e renda. Encontramos muitos brasileiros que saíram das grandes cidades do país para viver no deserto e não pensam em voltar tão cedo.
Um simpático e bem humorado fotografo brasileiro, que nos acompanhou em um dos passeios, confessou pagar R$ 4.500,00 reais mensais de aluguel da sua pequena, mas charmosa casa de barro. No entanto, seu faturamento não é inferior a R$ 35.000,00 reais no mesmo período. Isso é ou não chover no deserto?
Uma ótima semana a todos.
Abraços.

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