O deboche a loucura. | Leia.

Poucos sabem, mas o dia 30 de Março, é o dia mundial do Transtorno Bipolar, justo na semana que viralizou nas redes e em programas apelativos (e de mau gosto), o caso de uma mulher, no meio de um surto psicótico e de um morador de rua .. Bom o resto é só vocês colocarem no Google que vocês descobrem o desfecho da história.
Pois bem, a moça que virou protagonista desta triste história e virou chacota na internet, teve seu diagnóstico anunciado nesta segunda, pela clínica psiquiátrica onde está internada: transtorno afetivo bipolar em fase maníaca. Em mais detalhes: “a paciente apresenta alterações auditivas, comportamentos inadequados e inclusive tem dificuldade em se manter-se vestida.
Esse episódio é só um retrato da nossa podre e preconceituosa sociedade que gosta de apontar e rir da desgraça alheia. O que me enoja mais ainda são os comentários de outras mulheres, os vídeos postados e o ódio destilado…
Eu, como psicóloga, tinha a ingênua impressão que andávamos a passos largos de uma maior compreensão sobre doenças mentais. Erro meu, tenho o defeito de continuar acreditando no melhor do ser humano.
As pessoas só compreendem o que lhe faz sentido. É fácil entender sobre crises de ansiedade, bournout ou episódio de depressão leve. Afinal, todos já passamos ou vamos passar por isso. Todos se enganjam para essas campanhas.
Mas transtornos mentais são muito, MUITO, mais complexos que isso…
Deixa eu te explicar: bipolaridade não é só sobre mudar de humor e ter dias ruins e outros bons. Bipolaridade é ter alucinações, ver coisas que não existem, ouvir vozes que não falam e sentir coisas sem explicação, e em episódios maníacos ter certeza que pode voar ao se jogar de um prédio. É estar tão triste que pode ficar por dias sem tomar banho e ter uma infecção urinária por não conseguir ir até o banheiro.
Ter depressão não é só se sentir triste. É passar dias deitado na cama e nem mesmo atender o telefone, é perder a noção do tempo, perder a noção da realidade. É torcer para nunca mais acordar.
Ter depressão pós parto não é sobre estar infeliz com a maternidade. É ter o desejo real de jogar o filho pela janela da maternidade e precisar ser vigiada 24 horas por dia, para não fazer isto.
Ter esquizofrenia não é sobre ser “maluco beleza”, é acreditar que o Wiliann Bonner mandou você botar fogo na casa do vizinho.
Tudo isso é transtorno mental.
E não merece ser motivo de deboche nacional por um monte de caçadores de likes. Não deveria ser humilhação. Eu, não consigo ver nada de engraçado nessa história.
A moça segue internada. O morador de rua já foi até convidado para dar entrevistas em rede nacional e o “evento” virou música na boca de músicos (que vergonha Gustavo Lima). O marido da moça vem sendo ridicularizado por estar preocupado com ela. E ninguém se preocupa com o impacto irreversível na vida de cada um destes personagens dessa história sensacionalista.
E logo, em breve, vem setembro amarelo… todo mundo faz campanha contra o suicídio, suplicando por acolhimento ao sofrimento mental…
Engraçado, a mesma platéia que crucifixa é aquela que aplaude.

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